Dois dias após o senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) se encontrar com Donald Trump e um dia após se reunir com Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, o governo norte-americano decidiu classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais, ato cujo a autoria foi assumida e festejada pelo clã bolsonarista, assim como aconteceu no anúncio do tarifaço estadunidense contra o Brasil.

Qualquer um reconhece a possibilidade do senador Flávio Bolsonaro (PL) ganhar tração no tema da segurança pública, algo caro a grande parte dos brasileiros e área na qual o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou sua pior avaliação em pesquisa Datafolha, publicada há duas semanas, porém, ainda é cedo para estimar os impactos que a classificação deve ter nas eleições de outubro próximo, mas o histórico de “ações mal calculadas” e/ou amadoras dos irmão Flávio e Eduardo Bolsonaro não deixa dúvidas de que pode dar ruim.
“Qualquer previsão neste momento é imprecisa, porque é preciso entender como essa decisão será lida pela imprensa, por Flávio Bolsonaro, por Lula e por outros agentes políticos que influenciam o debate”, disse o professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes.
Da mesma forma, qualquer um que observa minimamente o perfil da trupe, pode imaginar que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não estudaram todas as consequências possíveis dessa declaração, que eles articularam contra o Brasil e brasileiros, pois elas não se restringem a criminosos faccionados.
Eles provavelmente não pensaram, ou até pensaram mesmo e desejem isso, mas a classificação que os Bolsonaro validaram juridicamente na justiça norte-americana com suas manifestações, pode ser usada como uma poderosa arma de coerção dos Estados Unidos contra o Brasil, toda vez que seus interesses forem contrariados, dada a subjetividade dos critérios da aplicação de medidas retaliatórias.
Se o Brasil, por exemplo, decidir não trocar suas terras raras por bugigangas, como faziam os índios, que trocavam ouro por espelhinhos de mão, o governo norte-americano pode simplesmente decidir, sem apego a critérios ou apelação, determinar a retirada de um banco brasileiro da rede SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunications), o sistema global de mensagens seguras que instrui e coordena instituições financeiras a realizarem pagamentos internacionais, caso ele tenha abrigado dinheiro de alguém que eles avaliam ser ligado ao crime em algum momento.
Resumindo, Flávio e Eduardo Bolsonaro podem ter entregue uma bomba atômica para os Estados Unidos lançar contra a soberania brasileira, uma possibilidade imediatamente assumida pelo presidente Lula.
“Não aceitamos ser tratados como republiquetas”, disse o petista, já dando fluidez ao discurso de soberania, “Não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil”, reforçou o presidente.
Além disso, em menor importância, o professor Lopes avalia que Lula, mais experiente em debates, pode virar o jogo ao argumentar que a medida revela a incapacidade do adversário de lidar com problemas internos, a ponto de recorrer à ajuda externa.
Sanções financeiras contra aliados
A partir do dia 5 de junho, as facções passarão a ser tratadas por Washington como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, o que abre a possibilidade do mandatário estadunidense determinar intervenções militares em território brasileiro e também impor sanções diversas ao país e instituições que, mesmo sem saber, mantenha alguma relação com essas organizações ou seus membros.
É nesse sentido também, que “o tiro pode sair pela culatra” para Flávio, diz o professor Dawisson.
“Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo a turma da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si.”
Essas figuras, que em sua maioria apoiam a pré-candidatura do senador à Presidência, diz o professor, “se forem atingidas podem se voltar contra ele, porque são pessoas com muito dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema político brasileiro”.
Neste sentido, o próprio Flávio Bolsonaro também pode ser atingido, pois, por exemplo, já fez campanha ao lado de TH Joias (MDB), eleito deputado estadual do Rio de Janeiro, mas preso por tráfico de drogas e participação no CV. O pré-candidato a presidente também tem neste currículo, manifestações ao lado do ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacelar (União Brasil), outro preso por envolvimento com a mesma facção criminosa.
A visão do professor de política internacional da UFMG encontra amparo em investigações conduzidas por autoridades como a Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público.
Essas três entidades deflagraram no ano passado a operação Carbono Oculto contra um esquema que se valia de fundos de investimentos e empresas financeiras que operam na Faria Lima para gerar, lavar, ocultar e blindar recursos da atuação do PCC no tráfico de drogas e no setor de combustíveis.
Ao todo, a estimativa da PF à época era de que o esquema tenha movimentado pelo menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
