Se alguém tinha ainda dúvidas a respeito dos riscos do Brasil mergulhar no totalitarismo, num eventual segundo mandato de Jair Bolsonaro (PL), elas se dissiparam com a divulgação, por enquanto extraoficial, dos planos da tropa de choque do presidente para mudar a composição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Presidente Jair Bolsonaro durante cerimonia do Dia do Soldado (25/08/2019)
Foto: Reprodução (Sérgio Lima/PODER 360)

Bolsonaro fortaleceu sua capacidade de mudar as regras dos jogos, a constituição, no primeiro turno com a eleição de muitos de seus aliados para o Senado, como Damares Alves (DF), Marcos Pontes (SP) e Hamilton Mourão. E foi o (ainda) vice-presidente quem queimou a largada, durante uma entrevista, ao detalhar o desejo de ampliar o número de ministros da Corte, que durante o mandato bolsonarista serviu como anteparo a pretensões do governo que arranhavam a Constituição, da qual o Supremo, vale lembrar, é o guardião.

Outra barreira de contenção era o Senado, que saiu das urnas mais bolsonarista do que entrou.

“Não é só uma questão de aumentar o número de cadeiras na Suprema Corte. A gente tem que trabalhar em cima do que são as decisões monocráticas, temos que trabalhar em cima do que vem a ser um mandato para os mandatários da Suprema Corte. Eu acho que não pode ser algo até os 75 anos. Ou 10, 12 anos”, disse o senador eleito pelo Rio Grande do Sul.

Não foram raras as vezes em que Mourão deu com a língua nos dentes, revelando as vísceras do governo Bolsonaro e fazendo com que o próprio presidente venha a público para desmentir seu vice o muy amigo.

Mas dessa vez, ao ser questionado, o próprio presidente demonstrou alinhamento com o plano, típico das ditaduras como a Venezuela, que usou o mesmo artifício para domesticar o Judiciário local e abrir caminho para Hugo Chaves e Nicolas Maduro fazerem do país o que bem quiseram.

O risco de venezuelização do Brasil hoje está representado por Bolsonaro, e ele mal disfarça o desejo ao dizer que pode até deixar o Supremo em paz caso ele atue apenas como órgão anexo de seu governo.

"Se eu for reeleito, e o Supremo baixar um pouco a temperatura, já temos duas pessoas garantidas, tem mais gente que é simpática a gente, mas tem umas garantias lá, questão pessoas que não tem, não dão voto com sangue nos olhos, tem mais duas vagas para o ano que vem, talvez você descarte essa sugestão (de Mourão). Se não for possível descartar, você vê como é que fica", disse o presidente ao ser questionado por uma jornalista.

A gravidade da declaração não passaria em branco em condições normais, mas passou batido, pois o país elegeu como tema urgente, por exemplo, a construção de banheiros unissex nas escolas, um factoide que não consta de nenhum programa de nenhum candidato.

Bolsonaro também fez uma multidão acreditar que o Brasil só não já é uma potência porque ministros mal intencionados do Supremo (e outros adversários) o impedem de governar. Essa conversa, embora não pare em pé, tem apelo entre convertidos.

Mal sabendo os adeptos do Bolsonarismo, na verdade, os pesos e contrapesos de uma democracia formam exatamente a retaguarda que impediram Bolsonaro de transformar o país em seu playground particular. Não fosse isso, hoje os brasileiros estariam recebendo cloroquina dissolvida no braço, contra a Covid-19.